Há algum tempo não escrevo aqui, pois questionei a necessidade visto que qualquer um pode gerar páginas e mais páginas de texto se assim desejar. Contudo, recentemente atentei-me a um detalhe: Ninguém gerará o que tenho a dizer, sem que antes, ao menos, eu introduza o assunto. Assunto esse que hoje surgiu ao observar padrões na produção de conteúdo, na perspectiva de alguém que presenciou tantas eras desde a internet discada que permitia apenas pequenas animações em flash com o áudio inexplicavelmente comprimido, até o surgimento e popularização de plataformas no formato curto e vertical.
Creio que todos estejam familiarizados com o conceito de trend: Um roteiro de vídeo, pose de foto ou modelo de publicação, geralmente extremamente simples, que é replicado por milhares de usuários comuns (e alguns não tão comuns, como empresas tentando surfar na onda) de forma orgânica, sem nenhuma coordenação, nenhum escritório central, regras ou diretrizes escritas. Todos são movidos pelo desejo genuíno de fazer parte do movimento ou de alcançar a fama mesmo que breve, aproveitando-se do impulsionamento dos algoritmos de sugestões.
Embora eu acredite que o conceito de trend surgiria em qualquer contexto onde exista a livre produção de conteúdo, não pude deixar de notar o surgimento de algo talvez um nível abaixo: vídeos que parecem familiares, as mesmas piadas, as mesmas situações, porém sendo replicados em diferentes perfis. Não é uma frequência grande o bastante para ser considerada uma trend viral, nem pequena o suficiente para ignorar um padrão. E o que outrora seria visto como falta de criatividade, agora parece ter sido normalizado, e arrisco a dizer: parece ser incentivado.
Ironicamente, o que direi a seguir não são ideias originais; são fatos que me foram apresentados de forma isolada, porém pretendo aqui conectar os pontos: Não é necessário esperar muito para que um criador de conteúdo de uma plataforma qualquer envolva-se em algum tipo de polêmica; seja dizendo algo controverso, caindo em investigações, participando de fraudes, etc. E o que podemos notar ao lado nas manchetes dos jornais? Nomes de plataformas!
Pois embora os criadores não sejam necessariamente funcionários nem porta-vozes das plataformas, a associação é inevitável. Aquela era uma figura que falava de tal assunto em tal lugar. Portanto, uma peça importante nesse quebra-cabeça. Um modelo onde a audiência também nota eventuais sumiços, pois eles acessaram a plataforma procurando o conteúdo produzido por aquele indivíduo, uma vez que ele se ausentou, restam apenas duas opções: Escolher um novo conteúdo para assistir (O que demanda energia) ou não assistir nada.
Esta forte associação, mesmo que involuntária do criador e plataforma, não é boa para os negócios. E a resposta para capturar a sua atenção (meu caro espectador), garantir seu retorno à plataforma todos os dias, e não ter o nome da corporação vinculado aos mais variados noticiários que um influenciador pode ir parar ao ignorar o bom senso (e possivelmente o time jurídico), foi justamente diminuir a importância destas figuras.
As plataformas de vídeo deixaram de ser apenas hospedeiras, transformando-se em verdadeiras redes sociais, logo apenas um vídeo explicando de forma satisfatória um assunto não é mais suficiente. É necessário replicar a informação, gerar comentários, vídeos resposta, compartilhamentos e curtidas.
A ideia é simples: Em vez de um único perfil concentrar todo o conteúdo de um determinado assunto, somos apresentados a um único feed infinito, de forma que inicialmente não há um tema definido, mas com o passar do tempo o algoritmo de sugestões vai filtrando seus interesses. O resultado: Conteúdo infinito de assuntos que lhe interessam. Basta abrir o aplicativo e tudo estará lá. De onde vem esses vídeos, textos, imagens? Não importa! E essa é justamente a ideia.
Se o dono de algum dos perfis for preso ou “cancelado”, poucos darão realmente falta, visto que existem ao menos uns cinco perfis semelhantes produzindo o mesmo conteúdo.
Com isso a informação passa a ser de todos e de ninguém ao mesmo tempo. Especialistas se veem forçados (ou pelo menos incentivados de forma insistente pelas plataformas) a adotarem estes novos formatos, criando vídeos extremamente resumidos. Assim surgem variações em perfis de curiosidades, alguns detalhes são distorcidos e no fim, o que temos é uma “quase informação”, onde as coisas estão “quase corretas”. Mas como ninguém está ali para um Telecurso, isso pouco importa.
Estamos diante de um cenário em que todos querem sua parcela de atenção, quando uma fórmula cansa, inicia-se a busca pela próxima. Muitos novos criadores se veem frustrados ao produzirem as coisas em estilo próprio e serem ignorados. Mas observam picos de audiência quando copiam o que já está dando certo. O resultado? Mais um canal, perfil ou conta exatamente igual a todas as outras. Claro que muitos se cansam, porém, como já discutimos anteriormente, isso é esperado: todos são descartáveis, formando uma espécie de “Rede Social de Teseu”.
As exceções também não são animadoras, pois mediante a necessidade de obter o monopólio da novidade, restam alternativas duvidosas como: Notícias sensacionalistas publicadas em tempo recorde, Informações vazadas e polêmicas exclusivas. O conteúdo pode até ser replicado, mas se você quer ver primeiro, só há um lugar onde recorrer.
A individualidade é atacada em duas frentes: Primeiro o espectador não escolhe quem ou o quê vai assistir, ele é servido passivamente. E o criador já não escolhe mais o que produzir, o conteúdo precisa estar “em alta”. Dois componentes essenciais para a plataforma, amarrados por um sistema invisível.
Obviamente ainda há esperança, pois com tanta facilidade para qualquer um publicar, o próprio público nota as constantes saturações e busca por algo novo, autêntico demais para ser facilmente replicado. Afinal o que você consome é um traço de sua personalidade, mas ao consumir o mesmo que todos, é perfeitamente natural sentir-se genérico.
Porém, como já tratei aqui no site: Consumir apenas passivamente vai te manter preso nesse ciclo por um bom tempo. Para encontrar conteúdos com personalidade é necessário explorar, submeter-se a expectativas e frustrações, e realmente importar-se com o criador tão quanto com o conteúdo. Saber que se algo acontecer com ele, sua obra, encerra-se ali também.

